Como driblar o calorão? Especialistas explicam como reduzir os efeitos das altas temperaturas

Como driblar o calorão? Especialistas explicam como reduzir os efeitos das altas temperaturas

Foto: Beto Albert (Arquivo Diário)

O verão ainda está longe do fim. A estação segue até 20 de março, e as temperaturas acima da média histórica continuam marcando os dias em Santa Maria e região. Com pouca chuva e calor persistente, especialistas reforçam a importância de cuidados redobrados com hidratação, alimentação e exposição ao sol.

Para orientar a população, a reportagem do Diário ouviu um endocrinologista, uma nutricionista e uma dermatologista.

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Calor desafia a capacidade de adaptação do organismo

Segundo o endocrinologista Rafael Machry, o calor extremo afeta diretamente o sistema de termorregulação do corpo humano, responsável por manter a temperatura estável.

– O organismo utiliza mecanismos como suor e dilatação dos microvasos da pele para dissipar calor. Em ambientes muito quentes, há aumento do fluxo sanguíneo e produção intensa de suor, o que leva à perda de água e eletrólitos, especialmente sódio – explica.

Essa perda pode provocar:

  • queda da pressão arterial
  • aumento da frequência cardíaca
  • sensação de cansaço
  • redução do desempenho físico e cognitivo

Se o calor excede a capacidade de compensação do corpo, a temperatura corporal sobe progressivamente, podendo causar disfunção neurológica, lesão renal por desidratação, distúrbios eletrolíticos e, nos casos mais graves, insolação, que é uma emergência médica – alerta.


Quem sofre mais com as altas temperaturas

Crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis ao calor extremo. Segundo Machry, isso ocorre por diferenças fisiológicas e comportamentais.

Idosos costumam ter menor percepção de sede, menor capacidade de sudorese e maior prevalência de doenças crônicas, além do uso frequente de medicamentos como diuréticos, anti-hipertensivos e psicotrópicos, que podem agravar a desidratação – afirma.

Já as crianças pequenas:

  • têm o sistema de termorregulação ainda imaturo
  • possuem maior proporção de superfície corporal em relação ao peso
  • dependem de adultos para oferta de líquidos e controle ambiental

Outros grupos com risco aumentado incluem:

  • gestantes
  • pessoas com doenças cardíacas, pulmonares, renais ou metabólicas
  • diabéticos e obesos
  • pessoas com transtornos neurológicos ou psiquiátricos
  • usuários de álcool e drogas
  • trabalhadores expostos ao sol
  • atletas
  • pessoas sem acesso a ambientes ventilados ou climatizados

Hidratação: beber água antes da sede aparecer

A principal recomendação dos especialistas é ingerir líquidos ao longo do dia, mesmo sem sentir sede. Machry destaca que a desidratação é uma das principais consequências do calor intenso.

– Para a maioria dos adultos, uma orientação prática é ingerir cerca de 30 a 35 mililitros de água por quilo de peso por dia, com aumento conforme o calor e a atividade física – explica.

Na prática, isso significa:

  • 2 a 3 litros por dia para um adulto médio em repouso
  • 3 a 4 litros ou mais em dias de calor intenso, trabalho ao ar livre ou exercício físico


Crianças e idosos devem receber oferta fracionada e frequente, mesmo sem manifestar sede.

Um indicador simples de hidratação adequada é a cor da urina:

  • clara – hidratação adequada
  • escura e concentrada – necessidade de beber mais líquidos

Machry ressalta que, em pessoas com doenças como insuficiência cardíaca, doença renal ou cirrose, a ingestão de líquidos deve seguir orientação médica individualizada.


Alimentação leve ajuda o corpo a produzir menos calor

A nutricionista Tereza Blasi destaca que a alimentação influencia diretamente na produção de calor pelo organismo e na hidratação.

Quanto mais pesada e calórica a refeição, maior a produção de energia e, consequentemente, de calor. No verão, o mínimo é muito bem-vindo – orienta.

Segundo a especialista, devem ser priorizados:

  • carnes grelhadas
  • saladas cruas
  • vegetais cozidos no vapor
  • folhas verdes, que contêm bastante água

Ela alerta para evitar:

  • pratos muito gordurosos
  • molhos elaborados
  • massas em excesso
  • queijos em excesso
  • feijoada
  • excesso de sal

Massa gera muita energia, e energia gera calor. O ideal é comer a quantidade que o corpo vai gastar ao longo do dia, evitando excessos – explica.


Frutas ajudam na hidratação, mas sucos não substituem

Frutas com alto teor de água são grandes aliadas no calor, como:

– É importante reforçar que estou falando da fruta, não do suco. O consumo da fruta ajuda na hidratação e fornece energia de forma mais equilibrada – ressalta.


Atenção à conservação dos alimentos no verão

Outro ponto destacado por Tereza Blasi é o risco de problemas gastrointestinais em dias quentes, principalmente por má conservação dos alimentos.

Alimentos cozidos não devem ficar fora da geladeira. Esfriou, deve ser refrigerado. Se for guardar, é geladeira ou congelamento – orienta.

Ela recomenda evitar, principalmente fora de casa:

  • maionese
  • ketchup
  • mostarda

Prefira temperos naturais, como limão, vinagre e azeite de oliva – acrescenta.

Frutas, verduras e legumes crus devem ser bem higienizados, com uso de hipoclorito ou produtos próprios para limpeza de alimentos.


Água é insubstituível

A nutricionista reforça que nenhum líquido hidrata tanto quanto a água.

– A água é um solvente universal. Ela melhora a função gástrica, intestinal, renal e da pele – afirma.

Dicas práticas para ajudar o consumo:

  • beber água de forma gradual, não grandes volumes de uma vez
  • evitar água excessivamente gelada pelo risco de choque térmico
  • se necessário, saborizar com rodelas ou gotas de limão ou laranja
  • cuidar da qualidade da água (fervura ou filtros, especialmente para crianças e idosos)

O endocrinologista Rafael Machry complementa que bebidas alcoólicas devem ser evitadas, pois desidratam, assim como o excesso de cafeína, inclusive, advindo do chimarrão.


Proteção da pele e uso do protetor solar

Com o calor intenso, a dermatologista Tanise Schorn destaca que a pele também sofre.

– É importante hidratar a pele não só com água ingerida, mas também com cremes e loções – explica.

O uso de protetor solar deve ser reforçado:

  • reaplicação a cada 2 ou 3 horas
  • reaplicação sempre após entrar na água

– O suor prejudica a manutenção do protetor, mesmo daqueles mais resistentes – alerta.


Guarda-chuva ajuda, mas não substitui protetor

O uso de guarda-chuvas para se proteger do sol pode ajudar a reduzir a sensação térmica.

– Eles criam uma sombra portátil e reduzem a incidência direta da radiação UV, protegendo rosto, colo e ombros. Bonés e chapéus também ajudam, mas nenhum deles substitui o protetor solar – afirma.

Modelos com proteção UV oferecem maior eficácia, embora não protejam contra a radiação refletida pelo asfalto ou areia.

Problemas de pele mais comuns no calor

Durante ondas de calor, aumentam os casos de:

  • manchas e melasma
  • acne e oleosidade excessiva
  • brotoeja
  • micoses e infecções fúngicas
  • dermatites
  • desidratação da pele
  • rosácea e sensibilidade

O calor, o suor e o ar-condicionado alteram a barreira da pele – explica.


Sinais de alerta do corpo

Segundo Machry, os primeiros sinais de exaustão térmica incluem:

  • suor excessivo
  • fraqueza
  • tontura
  • dor de cabeça
  • náusea
  • cãibras
  • boca seca
  • urina escura
  • coração acelerado
  • queda de pressão

Sinais de gravidade:

  • confusão mental
  • sonolência ou agitação
  • vômitos persistentes
  • desmaio
  • convulsões

Ao sentir mal-estar, é preciso interromper a atividade, buscar um local fresco, hidratar-se e afrouxar as roupas. Se não houver melhora rápida, é necessário procurar atendimento de urgência – orienta.

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