Descoberta em Dona Francisca revela espécie de réptil que viveu há 240 milhões de anos

Descoberta em Dona Francisca revela espécie de réptil que viveu há 240 milhões de anos

Fotos: Cappa (Divulgação)

Pesquisador Maurício Garcia é o responsável pela descoberta

Uma nova espécie de réptil fóssil descoberta em Dona Francisca, na Quarta Colônia, pode ajudar cientistas a compreender a origem dos arcossauros, grupo que deu origem aos dinossauros, às aves e aos crocodilos. Batizada de Silescelida acristata, a espécie viveu há cerca de 240 milhões de anos, pouco depois da maior extinção em massa da história da Terra. A descoberta foi feita por pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria (Cappa/UFSM), responsáveis pelo estudo publicado nesta quarta-feira (10).


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De acordo com o Cappa, a nova espécie pertence a um grupo de répteis arcossauriformes que apresenta características anatômicas próximas das observadas nos ancestrais dos dinossauros e crocodilos. As análises do grau de parentesco indicam que o animal pode estar relacionado aos Euparkeriidae, um grupo raro e ainda pouco compreendido, conhecido principalmente por fósseis encontrados na África do Sul, China, Rússia, Polônia e Alemanha.

– Essa descoberta amplia significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais e reforça a importância do Brasil para o entendimento da evolução dos ancestrais dos arcossauros – explica o paleontólogo Maurício Garcia, autor principal do estudo e aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM.


Fóssil ficou desaparecido por mais de 20 anos

Além da importância científica, a descoberta tem uma história curiosa. Parte do fóssil, que continha informações fundamentais sobre sua origem, ficou desaparecida por mais de duas décadas. Somente em 2022, durante uma visita técnica à coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), pesquisadores localizaram o fragmento perdido. A partir disso, foi possível confirmar a procedência do material e concluir a descrição da nova espécie.

O nome Silescelida acristata faz referência a essa trajetória. A palavra Silescelida combina termos do latim e do grego antigo que significam “silêncio” e “perna”, em alusão ao longo período em que parte do fóssil permaneceu desaparecida e ao fato de que os principais ossos encontrados pertencem aos membros do animal. Já acristata significa “sem crista” e destaca uma característica do fêmur que diferencia a espécie de outros parentes próximos.

Local onde o fóssil foi encontrado em Dona Francisca


Animal tinha porte pequeno

Com tamanho semelhante ao de um jacaré de pequeno porte, Silescelida acristata era um predador de corpo esguio e se locomovia sobre quatro patas. Sua alimentação provavelmente era composta por animais menores. Os pesquisadores apontam que a espécie tinha membros posicionados mais abaixo do corpo, e não lateralmente, o que proporcionava uma locomoção mais eficiente e ágil. Essa característica representa uma importante etapa na evolução dos ancestrais dos dinossauros e dos crocodilos.

Ilustração ajuda a entender como eram os répteis que viveram na região há milhões de anos

De acordo com o Cappa, os resultados do estudo indicam que a América do Sul pode ter tido um papel mais relevante na diversificação dos arcossauriformes do que se imaginava. A presença de Silescelida acristata sugere que esse grupo de répteis estava mais distribuído durante o período Triássico do que apontavam os registros fósseis conhecidos até agora. A espécie é a primeira representante da linhagem dos Euparkeriidae identificada na América do Sul.

A descoberta, conforme os pesquisadores, também reforça a importância do Rio Grande do Sul para os estudos sobre a fauna do Triássico, período marcado pelo surgimento e pela expansão dos grupos que mais tarde dominariam os ecossistemas terrestres durante a Era dos Dinossauros.

O fóssil de Silescelida acristata está depositado no acervo científico da PUCRS, em Porto Alegre. O estudo foi conduzido por Maurício Silva Garcia (Cappa/UFSM), Gabriela Menezes Cerqueira (Cappa/UFSM), Francesco Battista (UFRGS), Marco Brandalise de Andrade e Rodrigo Temp Müller (Cappa/UFSM). A pesquisa recebeu apoio da Capes, do CNPq e do INCT Paleovert. O acesso livre e gratuito ao artigo científico foi viabilizado pela Capes.


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