O verde que marca a paisagem de Santa Maria guarda histórias anteriores à própria formação do município: a ancestralidade dos povos originários que seguem presentes no território. Às vésperas do Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo, 19 de abril, o Diário visitou as três comunidades indígenas da cidade – uma aldeia guarani e duas caingangue – para mostrar como tradições ancestrais resistem e se reinventam no cotidiano.
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De mãos dadas com a cultura que resiste forte nas aldeias, estão também as demandas de lideranças que clamam por melhorias na infraestrutura e acesso à saúde. A educação também aparece nos relatos, cada vez mais valorizada como ferramenta de fortalecimento e continuidade das comunidades indígenas.
Em comum, as três comunidades buscam o reconhecimento e a valorização, não só do trabalho, mas da cultura e da história. Buscam, também, respeito e melhores oportunidades.

Educação e ancestralidade marcam cotidiano de comunidade guarani
Ha’e ma nhanemboguejy / Koo yvyrupa py jaiko’i aguã / Koo yvyrupa py jaiko’i aguã. O canto em idioma guarani, entoado por uma das crianças da aldeia localizada em Santa Maria, traduz um dos pilares da cultura: “Nosso pai / ele nos faz descer a esta Terra para vivermos / esta Terra para vivermos”. O vínculo com o território e a ancestralidade não ficam apenas no que é dito. Pode ser visto na simplicidade do cotidiano, como na escola indígena Yvyra Ijá Tenondé Vera Miri.
Lá, o princípio se materializa no ensino que une saberes tradicionais e conteúdos formais. Em uma das salas, um professor indígena e uma professora não indígena conduzem uma aula de multiplicação em português e guarani. Em outra, a estudante Débora Garai Fernandes, 21 anos, aplica a técnica de grafismo em um porongo, que, aos poucos, toma a forma de uma garça.

– A educação indígena é o conhecimento ancestral, passado de pai para filho e adquirido entre as relações dentro da comunidade. E a educação escolar vem para acrescentar a formação – resume o diretor da escola, Éder Matos.
A escola atende cerca de 50 alunos e conta com uma equipe formada por quatro professores indígenas e dez não indígenas. A instituição oferece Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e também Educação de Jovens e Adultos (EJA). Segundo o diretor, a estrutura atual é resultado de avanços legais e institucionais nas últimas décadas, especialmente após a Constituição de 1988, que garantiu o reconhecimento das especificidades da educação escolar indígena.

– A legislação assegura que a educação respeite as etnias, particularidades e ritos. A escola passa a ser um espaço fundamental para o desenvolvimento intelectual e para que os povos indígenas possam ocupar espaços na sociedade sem deixar de representar sua identidade – afirma.
O diretor destaca que os estudantes aprendem a grade tradicional, como matemática, ciências e história. A diferença está na soma de elementos, como arte, religiosidade e cultura. Para ele, há uma crescente valorização da educação dentro das comunidades, vista como ferramenta essencial para garantir direitos e ampliar oportunidades:
– Não se trata apenas de aprender, mas de se qualificar, de construir o próprio futuro e enfrentar os desafios conteporâneos impostos pela sociedade.

A escola está situada dentro da aldeia guarani, em uma área de 70 hectares no Distrito Industrial de Santa Maria. A imensidão impressiona. Em contraste com o verde, casas de madeira e barro afastadas uma das outras são moradia para as famílias guaranis que residem na cidade. A opy, como chamam a casa de reza, chama atenção pela estrutura que mescla palha e madeira. Os indígenas explicam que são espaços construídos “por todos” para ser utilizado para atividades religiosas da aldeia.
Há cerca de um quilômetro da escola, que fica próxima ao portão de entrada, está a casa de Luísa Benites, 33 anos. Ela é integrante da primeira família guarani que chegou ao município, em 2012. Sentada em um banco de madeira, ela refina com a faca um pedaço de bambu, que se transforma em tiras para a confecção de cestos. Tímida, conta que aprendeu a técnica com a mãe e mostra, orgulhosa, a mesa com as peças de artesanato.

O cacique Tiago Timóteo guia o caminho até lá e explica que essa é a principal fonte de renda da comunidade. Ainda assim, a comercialização enfrenta dificuldades, especialmente porque o centro urbano fica há mais de 30 minutos da aldeia.
Principais demandas
Questionado sobre as demandas da comunidade, o cacique não pensa duas vezes ao falar sobre a precariedade das estradas. Segundo ele, a situação tem comprometido o deslocamento de professores e moradores – especialmente em dias de chuva, por se tratar de uma estrada de chão.
– O acesso é muito difícil. A estrada está em condições precárias, e isso afeta quem vem todos os dias trabalhar aqui – relata.

Na área da saúde, o atendimento é considerado satisfatório, com suporte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e apoio do município para exames e consultas. Atualmente, a aldeia abriga 28 famílias, com a chegada constante de novos integrantes, vindos de diferentes regiões do Estado e até de outros países. As últimas vieram do Paraguai. Segundo o cacique, a busca por melhores condições de vida, como acesso à educação, saúde e possibilidade de cultivo, motiva a escolha pela cidade.
O que diz a prefeitura
Em relação à condição das estradas, a prefeitura afirmou que “a Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade faz a manutenção periódica, conforme um cronograma de trabalho em forma de rodízio”. Disse, também, que a comunidade pode fazer pedidos para execução de serviços de infraestrutura na cidade sob a responsabilidade da prefeitura. Conforme o Executivo, as solicitações devem ser protocolados por meio do telefone (55) 3174-1566. O expediente de atendimento na Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade é de segunda a sexta-feira, das 7h30min ao meio-dia e das 13h às 16h30min. A secretaria fica na Avenida Medianeira, 179.
“Se não somos nós a falar de nós, ninguém fala”, afirma cacique da aldeia caingangue

Do alto de um dos morros que circundam Santa Maria está a aldeia kaingang, localizada no distrito de Arroio Grande, zona rural do município. O cenário de sossego e bela paisagem contrasta, porém, com as dificuldades enfrentadas diariamente pelos 64 indígenas que residem na comunidade. Falta acesso à infraestrutura e a água potável, que finda dia sim, dia não.
Segundo o cacique Natanael Claudino, a estrada é prioridade há anos. Em dias de chuva, o trajeto se torna praticamente intransitável, o que dificulta a circulação dos moradores e o acesso de profissionais que atuam no posto de saúde e na escola.
– A dificuldade nossa tem sido o acesso. Muitas vezes, dependendo do tempo, a estrada fica impossível de trafegar. Os professores e a equipe da escola precisam subir de carro e, muitas vezes, não conseguem – diz o cacique.

Além do acesso, a falta de água é outro desafio. Embora um poço artesiano já tenha sido perfurado, a estrutura ainda não está em pleno funcionamento por falta de ligação elétrica. Enquanto isso, o abastecimento é feito por meio de uma vertente localizada dentro da aldeia e pelo apoio da Defesa Civil, que fornece água potável periodicamente. Ainda assim, o volume é insuficiente para atender toda a demanda.
– A água é uma questão bem delicada, principalmente porque envolve crianças. A gente avançou com a perfuração do poço, mas ainda falta a ligação da energia. Enquanto isso, não conseguimos suprir a necessidade da comunidade – afirma.
Já na educação está o motivo de orgulho da aldeia. O espaço abriga a Escola Indígena Augusto Ope da Silva, da rede estadual. Nas salas de aula, há muito mais do que os conteúdos programados. O ensino prioriza a história e a cultura indígena. Na última terça-feira, a professora dos anos iniciais Lenice Oliveira ensinava o conceito de grafismo aos alunos, caracterizado pelo uso de materiais naturais.

Em uma estrutura ao lado da escola, fica o posto de saúde da aldeia. Uma sala pequena, mas suficiente para atender as demandas. Conforme o cacique, a comunidade conta atualmente com uma equipe multidisciplinar que inclui médico, enfermeira, dentista e técnicos, além de um veículo disponível para atendimento das aldeias da região.
Preconceito e invisibilidade
Com a proximidade do dia dedicado aos povos indígenas, o cacique reflete sobre a falta de reconhecimento e visibilidade das comunidades na cidade. Apesar da presença histórica, ele afirma que ainda há desconhecimento e preconceito por parte da sociedade.
– Muitas vezes a gente se sente invisível. As pessoas têm uma opinião formada sobre nós, mas não conhecem a nossa realidade. Santa Maria, por exemplo, é conhecida como uma cidade de cultura, mas a gente não vê o poder público falando da cultura indígena. Se não somos nós a falar de nós, ninguém fala – reflete Natanael.
O cacique também cita a educação como ferramenta de transformação e defesa de direitos. Entre os sonhos da comunidade está a formação de jovens indígenas, para que possam atuar diretamente na proteção de seus territórios e interesses. O incentivo, conta, começa desde cedo:
– Incentivamos os mais jovens a estudar. O meu sonho é ver um cacique formado em Direito, para defender a nossa comunidade.
Educação e acesso ainda são desafios para jovens da aldeia
Natural de Redentora, no Norte do Estado, a agente comunitária de saúde Rosenilda Caroline Claudino, 26 anos, chegou à aldeia kaingang de Santa Maria em busca de trabalho. Hoje, vive com o marido e os filhos na comunidade. Há um ano, atua como agente comunitária, realizando visitas domiciliares e identificando demandas de saúde. Ela acompanha de perto a realidade das famílias e também os desafios enfrentados, especialmente pelos mais jovens.
Apesar de reconhecer que existem oportunidades de acesso ao ensino superior, ela avalia que nem sempre elas são aproveitadas. Entre os motivos, estão tanto o vínculo com o território quanto as dificuldades estruturais na educação básica.
– A oportunidade tem, tem universidade federal, têm acesso. Mas muitas vezes a gente não vai atrás. Acho que é muito por causa das nossas raízes, de ficar onde a gente nasceu. Tem muita gente que sai para estudar, mas quer voltar depois – afirma.

Outro fator apontado por ela é a desigualdade na formação escolar, que acaba impactando o desempenho dos estudantes indígenas em processos seletivos. Segundo Rosenilda, esse cenário contribui para que muitos jovens desistam de seguir os estudos ou não se sintam preparados para disputar vagas no ensino superior.
– A nossa escola é muito fraca. Quando a gente vai competir com quem estudou em escola particular, é muito difícil. Isso acaba desanimando muita gente – reflete.

O que diz a prefeitura
Em resposta às demandas, a prefeitura afirmou que a pasta de Infraestrutura e Mobilidade "faz melhorias periódicas por meio de serviços de empedramento, patrolamento e compactação da via". Já sobre a ligação do sistema, afirmou que a demanda está em andamento.
Novo território, velhos desafios: comunidade kaingang da Fepagro aguarda solução para moradia, saúde e educação

“Sentimos onde devemos estar, onde nosso povo já passou”. A frase de Elizandra Ribeiro, 37 anos, resume o motivo que levou um grupo de famílias kaingang a escolher Santa Maria como novo território. Há menos de um ano, vindos de Tenente Portela, no Noroeste do Rio Grande do Sul, eles se estabeleceram em uma área da antiga Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro). A mudança foi impulsionada por enchentes frequentes e pela escassez de oportunidades na região de origem. Hoje, 32 indígenas vivem no local, em estruturas improvisadas, como um galpão e uma casa desocupada.
A chegada à cidade foi tumultuada. A proximidade com uma escola municipal levou à suspensão temporária de aulas, enquanto disputas judiciais passaram a definir as regras de permanência na área. Apesar disso, a rotina atualmente é descrita como mais tranquila. Ainda assim, segundo Elizandra, a comunidade enfrenta dificuldades persistentes, principalmente no acesso à saúde e à educação.
– Desde que chegamos, buscamos atendimento nessas áreas, que são essenciais. Conseguimos acesso pontual a consultas no bairro Alto da Boa Vista, mas o atendimento é restrito, principalmente para gestantes. A comunidade como um todo não está sendo assistida – relata.

Na educação, o cenário é ainda mais crítico: nenhuma das crianças está frequentando a escola. Elizandra explica que o correto seria ter uma escola indígena no local, conforme determinam normativas nacionais e internacionais. Isso garantiria o ensino das crianças na língua materna e de acordo com o modo de ensino característico desses espaços. Por isso, estuda-se a criação de uma sala anexa – que funcionaria como uma extensão de uma escola indígena já existente em Santa Maria, mas instalada dentro da própria comunidade, com estrutura provisória e professores indicados pelos próprios indígenas.
– A proposta surge como alternativa enquanto não há uma escola própria no território. Primeiro porque não há ônibus para as crianças nesse momento e também porque os pais e responsáveis não se sentem confortáveis em levar as crianças para que estudem em escolas não indígenas por conta de ataques e ofensas que já aconteceram – explica o advogado que representa as famílias, Gabriel Soares.
As condições de moradia também são motivo de preocupação. Embora o abrigo atual ofereça proteção básica, está longe do ideal.
– A gente não está se molhando, mas não é assim que deveria ser. Viemos de situações precárias e buscamos melhorar a vida das crianças – diz Elizandra.
Artesanato: tradição e sustento

A principal fonte de renda das famílias é o artesanato. Claudinéia Medeiros, 27 anos, aprendeu o ofício manual com a mãe e a avó. Agora, já ensina o filho mais velho a trançar e dar forma aos filtros dos sonhos, pulseiras e cestinhos. Ela conta que divide a rotina entre a venda do artesanato no centro da cidade e o cuidado dos quatro filhos.
Elizandra, que acompanha a visita a Claudinéia, ressalta que o retorno financeiro com a venda do artesanato é limitado. Segundo Elizandra, em dias considerados bons, a venda rende cerca de R$ 50 — valor que cobre, basicamente, despesas com transporte e alimentação.
– O artesanato garante o básico, principalmente alimentação. Mas é pouco. Não cobre outras necessidades, como roupas, calçados e material escolar. A gente se vira como pode. O importante é que não estamos passando fome – relata.

O preconceito que persiste
Engana-se quem pensa que o preconceito e a exclusão ficaram no passado. Além das dificuldades estruturais, conforme Elizandra, é preciso lidar com o sentimento de “ser deixado de lado” – cenário que se repete em diferentes contextos, especialmente no ambiente escolar.
– Muitas vezes somos deixados de lado, até em atividades simples, como trabalhos em grupo. Isso acontece com adultos e crianças. É uma luta que vem de gerações. A gente se sente oprimido em muitos espaços, mas continua buscando mudanças – diz.
Situação jurídica segue indefinida
A permanência das famílias na área da antiga Fepagro ainda depende de definições judiciais. Segundo o advogado Gabriel Soares, que representa a comunidade, o caso tramita em duas frentes. Uma delas é uma mesa de conciliação no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), conduzida pela Comissão de Soluções Fundiárias. O processo está em fase de mediação e aguarda a apresentação de uma proposta por parte do Estado.
– A ideia é construir um acordo que contemple tanto as demandas da comunidade indígena quanto os interesses do Estado na área – explica o advogado.
Paralelamente, há uma ação civil pública em andamento na 3ª Vara Federal de Santa Maria, que trata de questões pontuais, como uso do espaço e funcionamento da área. A ação de reintegração de posse, por sua vez, segue suspensa. Apesar dos avanços pontuais, Soares avalia que o processo caminha lentamente.
– A situação permanece muito semelhante à do início da ocupação, com discussões em andamento e sem definição sobre a permanência definitiva das famílias – afirma.
