Foto: Vinicius Becker
O silêncio que antecede o início de um júri costuma carregar peso. Em Santa Maria, nesta quinta-feira (14), ele também deverá carregar despedida. Depois de mais de três décadas na magistratura e de ter presidido mais de 1,7 mil júris ao longo da carreira, o juiz Ulysses Fonseca Louzada comandará sua última sessão no Tribunal do Júri de Santa Maria antes de assumir oficialmente como desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS).
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A despedida ocorre justamente em um caso que marcou a cidade. Está sentado no banco dos réus Luiz Roney Freitas da Costa, 56 anos, acusado de matar a ex-companheira, Mariane de Souza Ravazi, 40, em outubro de 2024. O crime foi tratado pela investigação como feminicídio e teve grande repercussão pela violência registrada dentro de um restaurante da Rua Silva Jardim, no Bairro Rosário.
Será o último júri do magistrado que, durante décadas, transformou o plenário do Fórum de Santa Maria em palco de algumas das histórias mais duras, traumáticas e emblemáticas da Região Central do Estado.
- A primeira vez que eu cheguei aqui, isto aqui (plenário), estava cheio. Quem me recebeu foi o Vicente Paulo Bisogno. Eu não eu não consigo acreditar... Cada vez que penso que que passei 30 anos, trabalhando aqui. Ia completar 31 agora em junho. Eu me considero um filho de Santa Maria, posso dizer que passei mais tempo aqui que em qualquer outro lugar. E acabei formando minha família aqui, uma família de sete filhos e cinco netos. Então, tenho também um amor muito grande pela cidade - declarou Louzada, momentos antes de entrar no Salão do Júri, no começo da tarde desta quinta.

O último julgamento
O júri desta quinta analisa o assassinato de Mariane Ravazi. Conforme a denúncia do Ministério Público, o crime ocorreu na manhã de 9 de outubro de 2024, quando a vítima foi perseguida pelo ex-companheiro enquanto seguia para o trabalho.
Segundo a investigação, Mariane já possuía medida protetiva contra Costa. Ao perceber que estava sendo seguida, chegou a acionar a Brigada Militar e buscou abrigo em um restaurante da Rua Silva Jardim. O homem, porém, teria invadido o estabelecimento armado com uma faca e atacado a vítima diante de funcionários e clientes.
Mariane morreu no local antes da chegada do socorro.
O julgamento também encerra simbolicamente um ciclo para Louzada. O magistrado deixa o Tribunal do Júri justamente em um caso que envolve violência contra a mulher, tema que atravessou boa parte de sua atuação na Vara Criminal e também na Vara de Execuções Criminais Regional.
Antes do júri, Louzada recebeu a equipe do Diário para sua última entrevista como juiz. Logo na chegada, portando um óculos escuro, o futuro desembargador recebeu a equipe com a educação costumeira. Apesar do jeito sério, a conversa logo se desenrola para um diálogo mais sútil, deixando claro que todos são bem-vindos na sala do "juiz da Kiss".
O juiz que atravessou os grandes processos da cidade
Natural de Rio Grande, Ulysses Louzada construiu em Santa Maria a maior parte da carreira. Tornou-se uma das figuras mais conhecidas do Judiciário gaúcho ao conduzir centenas de júris populares e atuar em processos de alta complexidade.
Mas foi a tragédia da boate Kiss que colocou definitivamente o nome do magistrado no centro de um dos maiores processos criminais do país. Entre 2013 e 2020, Louzada esteve à frente da instrução do caso. Foram anos acompanhando depoimentos, provas técnicas, perícias, audiências e milhares de páginas processuais relacionadas ao incêndio que devastou Santa Maria. O magistrado chegou a deixar o processo pronto para julgamento em Santa Maria. Porém, poucos dias antes da sessão do júri ocorrer no município, houve o desaforamento para Porto Alegre.
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Entre o rigor e a humanidade
Ao longo da carreira, Louzada construiu uma imagem de magistrado técnico, mas também profundamente ligado ao aspecto humano das decisões judiciais. Durante anos, viveu uma realidade rara dentro do Judiciário: ao mesmo tempo em que presidia júris, também atuava na Vara de Execuções Criminais, responsável pela fiscalização de presídios da Região Central.
A convivência com o sistema penitenciário moldou parte de sua visão sobre segurança pública, ressocialização e dignidade humana. Inclusive, diz que um dos pontos que o entristece é não ter conseguido trazer um presídio feminino para Santa Maria.
– Durante estes meus anos em Santa Maria, batalhei muito para que isso acontecesse, mas não consegui. Talvez por culpa minha, ou por outros motivos – disse.

A mãe, a toga e a promessa
Apesar da longa trajetória, Louzada costuma dizer que não planejava ser juiz. Segundo ele, a carreira surgiu por insistência da mãe, Estrela Mery Fonseca Louzada, professora estadual que criou três filhos e incentivou o magistrado a prestar concurso para a magistratura.
— A minha mãe cuidada de todos nós com muito empenho e ainda estudava Direito. Devo muito a ela. Talvez eu esteja realizando o sonho dela – contou, com os olhos marejados, ao relembrar da mãe já falecida.
A promoção ao cargo de desembargador, anunciada pelo Tribunal de Justiça no fim de abril, acabou se transformando também em um gesto de memória familiar. Logo que assumir o novo cargo, pretende registrar o momento segurando uma foto de sua mãe.
— Eu pretendo entrar no Tribunal com a foto da minha mãe, isso se eles deixarem. Mas de qualquer maneira, vou mandar fazer uma foto bem grande dela — afirmou, emocionado.
Durante a entrevista, que durou cerca de 40 minutos, em diversos momentos Louzada comentava de sua mãe, e relembrou um momento que teve com os irmãos, em referência ao nome da mãe.
- Logo após nossa mãe falecer, nós conversávamos e prometemos olhar para o céu, na intenção de encontrar a Estrela. Mas não a que todos conhecem, e sim a nossa mãe.
O fim de um ciclo e arrependimentos
Nesta quinta, o plenário do Fórum não assiste apenas a um julgamento criminal. Também vê o encerramento de uma das trajetórias mais marcantes do Judiciário da Região Central. Depois de décadas ouvindo testemunhas, acompanhando famílias destruídas pela violência, conduzindo decisões e presidindo alguns dos processos mais emblemáticos da história recente do Rio Grande do Sul, Ulysses Louzada deixará o plenário do júri pela última vez como juiz de primeira instância.
Em meio ao momento de lembranças, um momento de julgamento próprio aparece em meio a conversa sobre os próximos dias pós júri. Para Louzada, ao longo destes anos, o único arrependimento é ter sido duro apenas com uma pessoa.
- Sempre fui muito duro comigo mesmo. Por vezes, abdicava de estar aproveitando com a família, com meus amigos de futebol e churrasco, para estar envolvido com o trabalho. Ao longo destes anos, sei que muitos devem ter pensado que eu não gostava de estar próximo, mas nunca foi isso. Sempre acabava trabalhando. Então acredito que tenha sido duro demais comigo - reflete.
Na sexta-feira (15), Louzada ainda ministra as aulas nos períodos da manhã e noite no curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Após isso, acompanhado da esposa, Stela Zamberlan, partirá para Porto Alegre, onde ainda busca um local para viver. Aliás, a escolha do imóvel é motivo de impasse.
- Minha mulher está até braba comigo, pois não paramos para ver onde vamos morar ainda – revela, em tom de brincadeira, acrescentando que nem mesmo o juiz com mais de três décadas de experiência escapa de um julgamento, mesmo que da própria família.