Tinha seis anos e meio quando iniciei meus estudos no Ginásio Marista, em São Gabriel. Como nasci em setembro, foi preciso uma licença especial porque começaria ou meio ano antes ou meio ano depois. Com a transferência da família para cá, passei a frequentar, desde 1961, o Colégio Santa Maria. Morei muitos anos na Niederauer, quase esquina com a Valandro – era aluno e vizinho do Colégio. O Santa Maria era uma espécie de escola de tempo integral, passava mais tempo ali do que em casa.
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Da janela da cozinha, muitas vezes, fiquei olhando aquele prédio majestoso que estava ali tão perto, minha vontade sempre foi subir no último andar e olhar a cidade da sacada que havia no final do corredor. Nos meus devaneios infanto-juvenis, aquele seria o lugar mais seguro da Terra, pela imponência de sua construção e onde ficaria distante de todos os problemas dos andares de baixo do meu mundo interior.
Quando vi as primeiras imagens daquele Titanic de pedra e cimento em chamas, me deu um arrepio, uma sensação estranha. Senti minhas entranhas queimando como se estivesse sendo atacado pelas línguas de fogo daquele dragão implacável e envolvido pela fumaça densa que saia em ondas gigantescas como feras presas na jaula das paredes que se mantiveram firmes e altivas. Logo me veio a imagem de São Marcelino, o “Champagnat da juventude, pai, amigo e protetor”, como tantas vezes cantei.
No dia seguinte ao incêndio, fui lá. Fotografei e olhei para aquele prédio como quem olha para um guerreiro que saiu de uma grande batalha. O gigante da minha janela estava lá, a sacada também. Não sei se a frase que aparece no muro (Deus é fiel), como mostra a foto desta página, foi escrita antes ou depois do incêndio, mas é muito significativa. Os planos material e divino estão sendo entrelaçados.
As causas e todas as circunstâncias deste incêndio devem ser devidamente apuradas, e que as lições ainda não aprendidas, tanto no campo material como imaterial, possam se transformar em necessários ensinamentos. Agora e depois.
Incêndio no Marista reabre vários debates
O incêndio que ocorreu no Colégio Marista Santa Maria reacendeu o debate sobre segurança contra sinistros causados pelo fogo, passando pela prevenção, efetivo humano, condições materiais e estrutura geral do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Maria, que tem caráter regional e atende mais de 30 municípios. Muitos questionamentos continuam sendo feitos – e que precisam gerar efeitos práticos. No caso do Marista, o fato a ser destacado positivamente é que não houve vítimas, mas nem sempre foi assim. Cada detalhe é importante, e, por isso, é necessário buscar respostas e fazer as indispensáveis correções.
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Legislativo
Na Câmara de Vereadores, onde já se cogita a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), repercute ainda o Relatório Final de uma Comissão Especial que encerrou suas atividades em 15 de dezembro de 2025, destacando que “o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Maria desempenha suas atividades com extrema dedicação, porém opera em condições abaixo das ideais, principalmente no que se refere à estrutura física, efetivo, frota e equipamentos”. Recebi o relatório completo das mãos do presidente da Comissão, Adelar Vargas dos Santos (Bolinha).
O protagonismo do Funrebom
O papel do Funrebom (Fundo Municipal de Reequipamento de Bombeiros) também foi discutido quando se levantou a falta de uma autoescada mecânica (magirus) para um controle mais rápido das chamas nos últimos andares. Luiz Fernando Pacheco, ex-presidente da Cacism, e que presidiu o Funrebom de 2011 a 2015 e de 2019 a 2023, lembrou que o órgão já teve protagonismo bem maior. Quando os valores arrecadados com taxas e serviços ficavam aqui, os recursos, destinados à compra de equipamentos e auxílio ao trabalho dos bombeiros, chegavam a R$ 1,2 milhão por ano. Por decisão do Governo do Estado, todos os valores passaram a ser destinados a um fundo estadual, tirando a autonomia do fundo municipal. Equipamentos como um desencarcerador, usado para retirar vítimas de acidentes presas nas ferragens dos veículos, e um carregador portátil de oxigênio, para facilitar o resgate de vítimas de afogamento, foram adquiridos por decisão do Funrebom local.
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Avaliação do comandante
Na avaliação do comandante geral do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, coronel Julimar Fortes Pinheiro, e como já foi amplamente noticiado, o combate ao incêndio no Marista teve pleno êxito. O efetivo utilizado para controlar o fogo foi adequado, disse o comandante em entrevista que me concedeu. Mesmo assim, admitiu que está aquém da necessidade.
Magirus
Sobre a autoescada mecânica, disse que sua ausência não foi determinante no combate ao incêndio no Marista, mas é uma necessidade. Mesmo tendo como prioridade o resgate de pessoas, seu uso, como o de drones, pode ajudar muito. Além das escadas que existem atualmente, uma em Porto Alegre e outra em Caxias do Sul, uma terceira deverá ser adquirida brevemente. Arrisco dizer que virá para Santa Maria.
Efetivo
Com a realização de concurso para admissão de 400 novos integrantes para o quadro de carreira e a nomeação de 544 soldados temporários, o efetivo terá um aumento significativo. Que venham logo.
Rotas de acesso e de fuga
Questionado sobre a impossibilidade de entrada de um caminhão por um dos portões do Colégio Marista, o coronel informou que, a partir de agora, haverá maior cuidado com rotas de acesso e de fuga, tanto na renovação do novo alvará para o Colégio como para outras situações que possam dificultar a ação dos bombeiros.