“Senhor Paulo, vejo aqui que o sr. é pai, certo? Pai de um menino e uma menina. Das maiores responsabilidades que temos nesta vida, o sr. há de concordar. Pois o exemplo que damos aos filhos é aquilo que fazemos, não o que falamos. Daqui alguns anos, quando sua filha estiver namorando, o sr. espera que o namorado dela a trate com todo respeito. Cuide dela. Proteja. Que é o que homem faz: protege, certo? Se esse sujeito maltratar sua filha, provavelmente o sr. vai desejar dar uma sova de laço nesse cara. Nesse momento, a gente pensa: mas de onde ela aprendeu que um homem que não cuida de sua mulher, que é violento com ela, seja o normal? Em que momento ela deixou essa normalização de um comportamento violento do homem sobre a mulher ? Pois aí eu lhe digo: ela aprendeu com o sr. Ela aprendeu que um homem pode dominar a vida de sua mulher. Que ele tem o direito de impor sua vontade sobre a dela. Que a única palavra que basta na família é a dele. Ela aprendeu isso em casa, sr. Paulo. Aprendeu com o sr. Lá na frente, quando ela crescer, talvez seja tarde. Mas agora ainda não é. Há tempo de ela aprender que um homem trata sua mulher com igual respeito a que é por ela tratado. Ainda dá tempo. Só depende do sr. De mais ninguém”.
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O personagem é fictício. O diálogo, real. Repetido toda semana em sala de audiências. Incontáveis vezes. Aqui, a arte imita a vida. Mas a vida é terrivelmente mais dolorosa. A violência doméstica e familiar é fenômeno que se denomina transgeracional. A naturalização da violência como um padrão de relacionamento deixa marcas profundas nos filhos. Forjará, qual ferro em brasa no couro do gado, tanto o modo com que se relacionarão no futuro, quanto a própria escolha de seus parceiros. A expressão children see children do resume tudo. Crianças vêem, crianças fazem.
Ter sido criado em um lar disfuncional, no qual a dominação do masculino sobre o feminino foi a tônica de funcionamento, modelará os filhos submetidos à violência. A reprodução de uma dinâmica violenta será muito provável para os meninos em sua vida adulta. E a aceitação, pelas meninas, de uma autoridade do marido sobre a mulher, distante da igualdade entre os cônjuges que todos buscamos, constituirá uma sentença irrecorrível. Um pai violento ensina a seus filhos e filhas como um homem procede diante de uma mulher. E, especialmente, como uma mulher admite ser tratada.
Esse é um dos enfoques na abordagem com agressores pais de meninas. Muitas vezes chamar a atenção de que poderão estar formando novos agressores em seus lares não lhes mobiliza. Todavia, apontando que será sua a responsabilidade pela concepção de uma mulher submissa e vítima de um homem violento, sem que ela nem perceba sua condição de vítima de violência doméstica, é um dos caminhos possíveis de sensibilização de nossos clientes.
A submissão a um processo judicial tem caráter não só retributivo (no que acreditamos fielmente - cadeia também é meio de convencimento e mudança de comportamento). A condição de réu apresenta igualmente a possibilidade de falarmos e pensarmos sobre algo que nem víamos. Mesmo que evidente a todos. Por isso importante a fala - com os agressores - que principia estas linhas. Pois que a transmissão geracional de padrões violentos nos relacionamentos, ainda que marcante, pode ser interrompida. Primeiro, com o que aqui efetivamos: escrevendo e falando sobre isso. Sem vergonha. Sem medo. Estabelecer relacionamentos disfuncionais poucas vezes figura escolha consciente. É parte de nossa origem. De como processamos as experiências familiares e ensinamentos que vivemos. Mas que, antes de tudo, precisa ser visto e assumido. Segundo, com o caminho que continuamente indicamos: a clínica. O acompanhamento psi. A mais potente chance de (re)ver e (re)escrever nossa história. Oportunidade para interromper ciclos de violência - nem sempre facilmente perceptíveis a quem nele se acha enredado.
Proteger mulheres vítimas de violência doméstica é atribuição que supera a mulher tutelada. É agir que ultrapassa gerações. Quebrar ciclos de violência protege a vítima. Mas também abraça seus filhos e filhas. Intervir em famílias que tem na violência a marca de sua interação interrompe a formação de novos agressores. E barra o nascimento de novas vítimas. Nossa missão transcende gerações. Por isso ela é compromisso de todos e todas. Estado e Comunidade.