“Ainda Estou Aqui”

José Carlos Campos Velho

Marcelo Rubens Paiva ficou conhecido por seu livro Feliz Ano Velho, que relatava um acidente que sofreu em uma cachoeira, quando traumatizou a região cervical e tornou-se tetraplégico. Sua história é uma história de superação. E de inclusão. Suas vivências desde o acidente até a reconstrução paulatina de sua vida sobre uma nova perspectiva serviu de exemplo para milhares de pessoas que sofrem do mesmo mal. Novo livro, publicado há cerca de uma década, Ainda estou aqui, embora fortemente biográfico, não tem a ver com sua condição de saúde. Marcelo Rubens Paiva é filho de Rubens Paiva, deputado federal eleito pelo PTB na década de 1960 e caçado pela ditadura militar, que posteriormente “desapareceu” nos porões da ditadura – na realidade foi morto em decorrência de tortura. O regime militar escondeu esse fato por décadas, inventando dezenas de justificativas e mentiras, para não assumir que Rubens Paiva havia sido morto dentro do aparato de repressão das forças armadas.

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Boa parte do livro conta essa história, enredando-a com a história de sua mãe, Eunice Paiva, uma verdadeira lutadora. Eunice, ao lado de reconstruir e viabilizar sua vida – viúva de marido não morto, mas desaparecido, com cinco filhos para criar e uma vida de muitas agruras pela frente, precisou de muita estrutura pessoal para conseguir vencer as dificuldades que a vida lhe colocava. Assim o fez.

A heroína Eunice

A prosa de Marcelo é fácil, coloquial, ele é um contador de histórias. E o livro discorre de maneira tranquila para o leitor – embora a gravidade das denúncias e a crueza do relato dos fatos relacionados à tortura e a morte de seu pai por vezes revolvam o estômago.

Eunice é uma heroína. Formou-se advogada, defendeu causas nobres, como a questão indígena e criou filhos como uma leoa – atenta, cuidadosa, realista. Estruturou-se financeiramente, mesmo tendo se formado em Direito aos 42 anos e militou politicamente na defesa de causas que lhe eram caras – o combate à ditadura, os direitos humanos, a luta pela necessidade de que a verdade fosse esclarecida e colocada em panos limpos.

Filme e prêmios

O livro gerou um filme, aclamado pela crítica, que permitiu a oportunidade para Fernanda Torres, que representava a protagonista, fosse agraciada com o Leão de Ouro de Hollywood de 2025. Uma honra para o cinema brasileiro.

Ato final

Como afirma o autor, Eunice teve uma vida em vários atos. E é sobre o ato final que gostaria de conversar um pouco. Quando decidiu se aposentar e viver a sua vida de maneira mais leve, Eunice é acometida de uma doença inesperada, uma surpresa para uma mulher cuja vida havia sido extremamente rica em vivências e experiências. Leitora voraz, informada, ativa intelectualmente, uma sombra escureceu o final da sua vida: a doença de Alzheimer. E, nesse aspecto, os capítulos finais do livro de Marcelo Rubens Paiva são extremamente ilustrativos: mostram de uma perspectiva do familiar que vê seu ente querido mergulhar no universo desagregador das demências, o cotidiano do paciente que lentamente vai perdendo suas capacidades, seus traços de personalidade, as confusões, as dificuldades. Trata-se de um depoimento lúcido e sofrido de quem conhece uma pessoa íntegra e inteligente – sua mãe – aos poucos perder a noção de si, se comportar de forma inadequada, necessitar da ajuda de outros para viver. Não por acaso o livro começa falando de nossas primeiras memórias, mostrando o quanto a memória constrói nossas vidas e quanto sua falta pode ser desconcertante e desagregadora, para a pessoa e para a família. 

A Doença de Alzheimer é um dos grandes desafios da humanidade neste século XXI. Desde a busca de tratamentos mais eficazes e acessíveis até o desenvolvimento de tecnologias de cuidado para os milhões de afetados pela doença em todo o mundo, temos um longo caminho a percorrer.

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