“Se ela não for minha, não será de mais ninguém…”

Rafael Pagnon Cunha

Ex-companheiro, ainda inconformado com o fim da relação, determinada noite invade a casa da mãe de seu filho, na segunda oportunidade em que ela sai com alguém. Agride-a. Namorado sai do quarto e é alvejado um tiro no rosto. Cai morto, no meio da sala.

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Poucos dias após, outro antigo companheiro/namorado aguarda o atual de sua ex no estacionamento de uma academia. Corre até ele. Leva uma faca na mão. Desfere golpe no tronco do atual namorado. Persegue-o para dentro da academia. Pulam a catraca de entrada. Finaliza a vida do novo amor de sua ex com outro golpe. É rendido e preso por policial militar que ali se exercitava.


A triste vida real. Dramas colhidos nas redes sociais – nos quais a realidade é mais trágica que a arte. Fatos ocorridos nos últimos dias. O primeiro em Santa Maria, figurando o primeiro e lamentável homicídio do ano. Outro no Paraná. Instrumentos diversos usados para ceifar vidas (confirmando o que sabemos: armas não matam pessoas… pessoas matam pessoas). Nesses casos, violência direcionada a quem ocupou o lugar dos agressores na vida das mulheres. Outras vezes, são elas os alvos. Vidas interrompidas prematuramente. Vidas das vítimas que se vão. Destinos dos homicidas selados, igualmente arrasados para todo o sempre. Em comum: a terrível cultura da objetificação da mulher.

Nunca é sobre amor

“Se ela não for minha, não será de mais ninguém.” Com a liberdade de quem escreve, é expressão que, estimo, haja habitado os quadros acima pintados. Ou ditas. Ou pensadas. Certamente vividas.


A patética oração, mais que roteiro de filme barato, é lida com frequência quase diária em BOs (boletins de ocorrência, registrados nas Delegacias de Polícia). Reproduzida, semanalmente, em nossa sala de audiência do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. E o pior: vive e é cultivada em nossa cultura. Em nossa sociedade. Em todas classes sociais. Por todas idades.

 
A expressão reproduz visão que vislumbra (n)a mulher nada mais que um objeto. Um bem – do qual o homem se apropria, com ou sem o consentimento dela. Pontualmente – mais vezes que gostaríamos –, com silente anuência das vítimas. E que nunca constitui expressão de amor, como aqui já se escreveu. Nunca é sobre amor. É sempre sobre domínio. Um exercício de controle e dominação. Em face da qual se perde, por vezes, o controle – ensejando tragédias como as de Santa Maria e Londrina, acima descritas.

Ninguém é dono de ninguém

Precisamos ensinar a nossos meninos e a nossas meninas que ninguém é dono de ninguém. Que casamento não transfere propriedade da pessoa amada. Que o namoro não lhe faz dono da rotina, dos desejos, dos planos e dos sonhos do outro.

 
Essa mudança de cultura deve ser ensinada em salas de aula, não tenho dúvida. Necessita ser explicitada pelos meios de comunicação. Atrai pronta intervenção do Estado, dizendo sonoro e simbólico não aos que assim agem. 

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Todavia, o giro copérnico, a grande mudança de chave, precisa partir de casa. Com fala adequada, sempre. Mas, fundamentalmente, com exemplos. Exemplos de homens protetores, pois isso é natural e atávico ao masculino. Porém, sempre respeitando as escolhas das mulheres. Cultivando liberdade recíproca. Pois ninguém é dono de ninguém.
Amar é cuidar e proteger. Jamais abafar. Jamais oprimir. Jamais possuir. Amar é respeitar e (con)viver. E, muitas vezes, saber deixar ir o seu amor.

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